Sacos plásticos e honestidade intelectual

Walter Alves/Gazeta do Povo
Walter Alves/Gazeta do Povo

O comediante e crítico social americano George Carlin (1937 – 2008), em um de seus mais brilhantes stand-ups, nos presenteia com a seguinte reflexão:

Nos consideramos tão importantes…tão importantes. Todo mundo agora decidiu que vai salvar alguma coisa. “Salvem as árvores, salvem as abelhas, salvem as baleias, salvem aqueles caracóis”. E a maior arrogância de todas: “Salvem o planeta.” O quê? Esse pessoal está me gozando? Salvar o planeta? Nós ainda nem sequer sabemos como cuidar de nós mesmos; ainda não aprendemos como cuidar uns dos outros e vamos salvar o planeta?

Mais adiante Carlin fala sobre sacolas plásticas, dessas oferecidas por supermercados para transportarmos nossas compras:

O planeta tem passado por ameaças bem piores do que a que nós representamos para ele… ele tem passado por terremotos, vulcões, placas tectônicas, afastamento continental, explosões solares, manchas solares, tempestades magnéticas, a reversão magnética dos polos… centenas de milhares de anos sendo bombardeado por cometas, asteroides e meteoros, enchentes globais, subidas de maré, incêndios pelo mundo, erosão, raios cósmicos, eras glaciais… e nós achamos que alguns sacos plásticos vão fazer alguma diferença? O planeta… o planeta não vai a lugar algum. Nós vamos!

Carlin está certo? Sim, ele está. Quando nos preocupamos com sacolas plásticas ou, de uma forma geral, com a não poluição do ambiente, não é com o planeta Terra em si que estamos preocupados, mas sim com o planeta enquanto nosso lar. Ele é a única morada de nossa espécie. Não temos outro para onde ir (por enquanto). Se ocorrer um cataclismo que transforme o nosso planeta em uma cópia de Marte, nós desapareceremos, mas o planeta continuará aqui.

O que Carlin talvez esteja querendo nos dizer é que nossa preocupação com a preservação do meio ambiente não tem por objeto o planeta Terra, e sim a nós mesmos. Isso muda a nossa perspectiva. Eu chamo isso de honestidade intelectual. Talvez da próxima vez que fizermos alguma escolha que atenue a degradação do meio ambiente, devêssemos tentar uma abordagem psicológica diferente: “Estou fazendo isso por mim e pelas pessoas que me são especiais. O planeta não precisa de mim: eu preciso dele. E é por isso que quero preservá-lo em um estado que me permita continuar vivendo bem nele.”

Não podemos salvar o planeta. É muito provável que as apocalípticas predições de uma expansão solar, prevista para daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, e que desintegrará o nosso planeta, venham a se tornar realidade. O que nos resta é trabalhar para que a nossa espécie ainda esteja viva e bem acomodada em algum exoplaneta quando então dermos o derradeiro adeus à nossa amada Terra.

Por isso, quando evitamos o uso de sacolas plásticas, a poluição dos rios, o desmatamento e outras coisas nocivas à nossa biosfera, não estamos salvando o planeta. Estamos salvando a nós mesmos e as futuras gerações de nossa espécie. Se pudermos, como espécie, chegar a assistir a destruição de nosso planeta – engolido pelo sol, muito bem acomodados em algum exoplaneta, que estejam somados aos esforços de preservação da humanidade aquilo que a nossa geração tiver feito e deixado como legado.

Referência: The planet is fine, George Carlin, 1992, especial da HBO: Jammin’ in New York.

*Artigo escrito por Rudimar Schmitz , membro da Associação Mensa Brasil, e publicado originalmente no blog Giro Sustentável, Instituto GRPCOM.  Giro Sustentável, Por um Mundo Melhor.

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