Proibido para menores (de 132)

*Artigo publicado originalmente na Revista Folha em Janeiro de 2000
por Bel Moherdaui

joel_g[1]
Joel Augusto Teixeira, 31, neurocirurgião formado pela USP, fez os testes de QI e tirou nota 156. Foto: Alexandre Schneider/Folha Imagem
Eles estão entre os 2% mais “inteligentes” do mundo e já sofreram preconceito por isso. Ela aprendeu a ler um mês antes de completar 3 anos e a escrever logo depois. Aos 6, já falava inglês e com 13 dava aulas de violão. Hoje, aos 30, é neuropediatra, fala cinco línguas e entende “tudo” sobre animais.

Marcia Hartmann Franco Teixeira, portadora de altas habilidades -em linguagem mais simples, uma “superdotada”-, integra um seleto grupo de 10 brasileiros membros de associações internacionais de “geninhos”.
Para ser membro da Mensa International (mesa em latim), por exemplo, o candidato precisa obter uma pontuação que o encaixe entre os 2% mais “inteligentes” do mundo – cerca de 132 pontos no teste de QI (quociente de inteligência). A média na população em geral varia em torno de 100.

A Mensa, com sede em Londres, é a mais conhecida entre as organizações voltadas a reunir a “nata da nata” dos superdotados do planeta. Mas não é a única. Cada “clube de geninhos” limita a entrada a um determinado valor de QI, definido sempre em comparação com os resultados médios. Assim, na Triple 9 Society e na International Society for Philosophical Enquiry, só entram aqueles que tiverem QI acima de 150 (1 em cada grupo de mil). Na The Prometheus, só acima de 164 (1 em 30 mil) e na Mega Society, a mais elitista, só os que superam 176 (1 em um milhão).

Uma vez “sócio” de um desses clubinhos, é possível participar de palestras, viagens, trabalhos comunitários ou simplesmente trocar experiências por e-mail. De cinco organizações contactadas pela Revista, apenas duas têm membros brasileiros: além da Mensa, a ISPE (veja quadro). “Nós deveríamos ter mais brasileiros, afinal, esse é um país muito grande”, disse o diretor-executivo da Mensa, Ed Vincent, em entrevista à Revista -na Grã-Bretanha, são 35 mil filiados. Vicent planeja fazer uma sessão de testes no Brasil para fundar um grupo por aqui.

As Organizações
Candidatos em potencial Nº de brasileiros Para ser aceito…
(QI mínimo)
Mega Society 1 em 1 milhão 0 176
Prometheus Society 1 em 30 mil 0 164
Triple Nine Society 1 em mil 0 150
ISPE (International Society for Philosophical Enquiry) 1 em mil 1* 150
Mensa International 1 em 50 10 132
*César Luís Guedes é membro da ISPE e da Mensa

O marido de Marcia, o neurocirurgião Joel Augusto Ribeiro Teixeira, 31, acompanha a mulher nos encontros virtuais da Mensa. Os dois responderam os testes para o “clube” juntos, há dois anos. “Começamos a fazer, pela Internet, provinhas que simulam testes de QI. Um dia, encontrei o site da Mensa e me animei. Decidimos tentar para ver no que dava”, lembra Joel. As provas foram encaminhadas pelo correio a uma antiga professora de francês de Marcia, que o casal indicou para supervisioná-los. O resultado -156 pontos cada um- surpreendeu os médicos. “Estranhamos, não esperávamos tanto”, diz Joel. Foi, na verdade, apenas a confirmação de suspeitas que o casal já tinha. “Sempre tive muita facilidade na escola, tirava notas muito altas mesmo sem estudar”, lembra Marcia, que está de licença-maternidade (ela tem dois filhos, o recém-nascido Felipe, e Marina, 2).

Marcia e Joel fizeram a mesma faculdade, na USP, mas se conheceram apenas na residência. “Descobri uma enfermaria de neurologia com crianças pequenas e, sempre que podia, passava por lá”, conta Marcia. Joel era o responsável pelo setor… os dois acabaram se conhecendo, saindo, namorando e casando. Ambos acreditam que “inteligência foi fundamental” nesse caso. “Qualquer coisa que diferencie uma pessoa da maioria pode torná-la solitária. Quando você encontra uma pessoa igual, não precisa mais ficar representando, pode ser você mesma. Foi isso que aconteceu entre a gente”, explica Marcia.

Errar de Propósito

Sentir-se um peixe fora d’água é um sentimento comum entre superdotados, que sofrem muito durante a infância, já que aceitar o “diferente” não é propriamente uma virtude infantil. “Como eu ia muito bem no colégio, era tachada de “cdf’. Muitas vezes eu errava de propósito na prova para não ficar com dez em tudo, porque pegava mal”, conta a médica. O engenheiro Carlos Moreira Leite, 37, QI 164, colega de Marcia e Joel na Mensa, também guarda lembranças amargas. “Achava os mais novos imbecis, mas os mais velhos não me aceitavam. Eu era uma criança de 10 anos, com idade mental de 16, mas com a idade emocional ainda de 10”, explica. No final do ginásio, ele chegou a tirar notas baixas de propósito “só para ser aceito na turma”.

Carlos acha que existe preconceito contra os mais “inteligentes” no Brasil. “Não é algo aberto, mas disfarçado. As pessoas te isolam, tratam rispidamente. Mas, depois de uma certa idade, você se acostuma.” Até hoje, ele é meio solitário. “Sou introvertido e gosto de ficar sozinho. Fico analisando tudo, quero sempre tirar minhas próprias conclusões”, diz Carlos, que é solteiro e começou a namorar na semana passada. O engenheiro encontrou na Mensa a oportunidade para falar sobre esses entraves com seus “iguais”. “A ideia não é ficar falando de inteligência, mas conversar sobre qualquer coisa com pessoas que já passaram pelas mesmas experiências que você. Pegue uma associação de deficientes físicos: quando se encontram, eles não vão ficar falando só sobre seus problemas, mas vão encarar o mundo de uma forma parecida”, diz.

O publicitário aposentado José Rolim Valença, 70, QI 168, define-se também como “pouco sociável”. “Sou muito sozinho, tenho poucos amigos, quase não recebo visitas. Não saio muito, porque prefiro ler um bom livro a ficar em uma boate fumando e bebendo”, diz José, que está no Mensa há 10 anos, onde conversa on line sobre assuntos tão díspares quanto teoria do caos e poesia inglesa. Divorciado há 15 anos, dois filhos, José mudou-se para Águas de São Pedro (interior de SP) no ano passado. Como seus “colegas-gênios”, entrou na escola já alfabetizado, mas sofreu com a sua facilidade de aprender. “Os professores não respondiam o que eu perguntava e eu tinha duas saídas: podia me revoltar ou me nivelar pelos demais. Fiz a segunda opção.”

De tudo um pouco

Além da precocidade e da dificuldade em relacionamentos, outra característica comum aos superdotados são os interesses múltiplos: eles fazem “tudo ao mesmo tempo agora”. Carlos já publicou dois livros de engenharia e um de contos, estuda física quântica e filosofia, é pintor nas horas vagas e cuida do seu jardim. Marcia arruma tempo para clinicar, cuidar das crianças, fazer natação, tocar violão e ler muito. O espectro de interesses de José Rolim inclui culinária, mergulho, pintura, teatro e computador.

“Os superdotados juntam dados com extrema rapidez, são normalmente mais agitados e exigem demais dos outros. Sempre querem mais informações e têm vários interesses discrepantes ao mesmo tempo”, explica a educadora Marsyl Bulkool Mettrau, 61, presidente da Associação Brasileira para Superdotados.

Marsyl, como muitos pedagogos, acha que avaliar inteligência apenas com testes de QI é um erro. “Eu não descarto a validade dos testes, mas eles não funcionam como resposta única. Na associação, trabalhamos com cruzamento de dados, que inclui a história de vida da pessoa e as informações de pais, professores e amigos”, explica.
O teste de QI, inventado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, é um parâmetro para medir três tipos de inteligência: a verbal (capacidade de trabalhar as palavras com propriedade, tamanho de vocabulário), a lógico-matemática (cálculos) e a espacial. “O teste de QI não deve ser usado isoladamente. Sem um levantamento do estado emocional, fica difícil avaliar uma pessoa”, diz a psicóloga Christianne Vita, do Programa Objetivo de Incentivo ao Talento.

Para o neurologista Paulo Bertolucci, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o teste de QI tem um “viés cultural e forte influência da escolaridade”. “Quem teve pouco estudo acaba se saindo mal. O teste não-verbal é o melhor, embora não seja 100% satisfatório”, diz.

Ana Matilde Pacheco e Chaves, professora de pós-graduação de psicologia social e do trabalho da USP, defende o teste. “De todas as medidas da psicologia, as mais eficientes são os testes de QI”, afirma. Ela esclarece, porém, que outros três tipos de inteligências não aparecem no teste de QI: a do movimento (típica de esportistas, bailarinos etc.), a intrapessoal (capacidade de auto-entendimento) e a interpessoal (relacionamento com os outros). “O mais raro é ter superdotados com facilidades em várias dessas áreas”, diz.

Física Sozinho

Mesmo sem acreditar muito “nessa história de QI”, o físico nuclear Airton Deppman, 35, fez os testes e entrou para a Mensa há três anos. Ele não lembra do resultado exatamente, mas sabe que ficou entre o “1% mais inteligente”. “Fiquei interessado porque eles ajudam crianças superdotadas. Um programa assim no Brasil seria muito útil, porque deve haver muito talento desperdiçado entre os menores abandonados”, diz Airton, que é professor na USP.
Ele conta que, apesar da pecha de “cdf”, não teve problemas de adaptação na escola. Aos 15 anos, começou a estudar sozinho física quântica, cálculo integral e diferencial, além de ler o jornal de “ponta a ponta”.
Casado, pai de uma menina de 4 anos, Airton se define como “introvertido”, mas diz não ter problemas de relacionamento. Apesar de achar besteira o conceito de inteligência emocional, fez um teste pela Internet e tirou “notas baixíssimas”, conta, rindo.

Único brasileiro na ISPE (International Society for Philosophical Enquiry), o consultor comercial César Luís Guedes, 29, QI 156, diz que precisa se “segurar para não ser chamado de chato em casa”. “Preciso adequar a linguagem ao meu interlocutor. Eu tenho mania de corrigir”, confessa. César entrou primeiro na ISPE, mas como não tinha brasileiros, inscreveu-se também na Mensa. “É bom para desenvolver discussões filosóficas e para trocar experiências”, diz César, que é solteiro e namora há dez anos. O consultor aponta uma sensação comum entre seus colegas “geninhos”: uma certa frustração financeira. “Em geral, o raciocínio é o seguinte: “já que somos tão inteligentes, por que não estamos milionários? Por que não tivemos uma idéia brilhante?”.

Ele mesmo tenta responder: “O sucesso profissional depende também de senso de oportunidade e de sorte”.
César diz que não se sente vaidoso por ser o único brasileiro em um grupo tão seleto e não gosta do termo superdotado por “criar uma aura de arrogância”. “Não sou deslumbrado comigo mesmo, não tenho preconceito, mas também não suporto gente burra”.

Para ler o artigo original nos arquivos da Revista Folha, clique aqui.

Proibido para menores (de 132)

Participe!

%d blogueiros gostam disto: