Um jantar com os homens mais inteligentes do Brasil

A Mensa é uma associação que se orgulha de reunir os 2% da população com maior QI do mundo – é um clube de “Sheldons”, segundo seus próprios membros. ÉPOCA foi convidada para um happy hour do grupo no Brasil

Por Rafael Siscati, Revista Época
30 de dezembro de 2015

“Mas, do que é que você está falando, amontoado de carbono?”. O baiano Daniel Minahim estava pesadamente acomodado à mesa de uma pizzaria num shopping de São Paulo, caneca de cerveja vazia ao alcance da mão, sorriso largo na boca. Ao seu lado, olhos meio vidrados, o amigo Marcelo Abrileri gesticulava: “O que é a dor? Essa sensação tão fina. Ou, o que é o prazer?”, dizia, ante as expressões deliciadas de seus sete colegas de mesa. “Talvez a dor, o prazer ou o frio sejam mostras de que fomos criados por uma inteligência superior”, afirmou. Fez-se silêncio por alguns instantes. Numa das pontas da mesa, terminando de mastigar um pedaço de pizza, o paulistano Thiago Ferreira sorria. “As nossas reuniões são sempre assim”, disse. “O nível às vezes sobe.” Já passava das dez da noite de uma sexta-feira calorenta,e os membros da Mensa queriam discutir metafísica. Ou algo desse gênero.

Thiago é coordenador regional da Mensa São Paulo, o braço paulista de uma associação internacional que reúne pessoas com quociente de inteligência (QI) elevado. Mais especificamente, aqueles sortudos que ocupam uma faixa populacional estreita, a dos 2% com QI mais alto – o número gira em torno de 132 pontos, enquanto a maioria das pessoas pontua triviais 100. Essa fatia demográfica, segundo a Mensa, congrega pessoas de perfil variado e alguns nomes ilustres – da atriz Geena Davis ao músico Roger (em outubro de 2015, ele deu uma “carteirada” via Twitter: “Bom, eu sou membro da Mensa. E vc é…?”), da banda brasileira Ultraje a Rigor. “Você já viu o Sheldon?”, perguntou Thiago, referindo-se ao personagem genial e um bocado inconveniente do seriado The Big Bang Theory. “É uma caricatura meio extremista. Mas nós somos um pouco aquilo.”

A Mensa foi criada há 69 anos na Inglaterra pelo químico britânico Lancelot Ware e pelo advogado australiano Roland Berill. Conta a história que a ideia partiu de Ware. Como o químico não era afeito a burocracias, Berill assumiu a tarefa de organizar a papelada e fundar a associação. Em latim, Mensa significa mesa. Numa antiga gíria mexicana, significa também “idiota”. Os fundadores sabiam disso, mas decidiram mater o nome – experimente batizar um clube e você saberá que a tarefa exige fazer concessões. Em quase sete décadas, a Mensa se expandiu por cem países. Chegou a alcançar alguma notoriedade: em 1999, apareceu em um episódio de Os Simpsons. Mas nunca se popularizou demais: há quem diga que Berill era um elitista assumido e se ressentia de alguns mensans – como os membros se chamam – não terem muito dinheiro. No Brasil, há 1.500 deles. “Mas não tem como a Mensa crescer muito mais”, diz Sérgio Itamar, o presidente nacional. “Até porque, a proposta é reunir somente os 2% mais inteligentes da população.” É uma ambição restritiva.

A Mensa Brasil foi fundada em 2002 por Joel Ribeiro, um neurocirurgião calvo e quietão, que leva sempre consigo a carteirinha de associado número 3. Não há consenso sobre quem é o dono da carteirinha número 1. A maioria dos mensans procura a associação depois de descobri-la por acaso, navegando na internet ou folheando uma revista. “Eu descobri a Mensa assistindo ao programa da Ana Maria Braga”, diz Thiago. Numa manhã, a apresentadora da Globo recebeu a visita de uma família em que todos eram membros da Mensa. A identificação do rapaz foi imediata. “Desde pequeno, eu me sentia meio diferente”, diz Thiago. “Eu era mais maduro. Aos 12 anos, queria conversar com as pessoas de 16, 18 anos.” Entre os membros da Mensa, há diversas queixas de inadequação social. Pense naquele seu colega de classe que tirava boas notas no colégio e passava a maior parte do tempo lendo, e você terá a imagem do mensam tradicional, segundo eles mesmos: “Nosso tempo de maturação é diferente”, diz Thiago. “ A gente aprende muito rapidamente, domina um assunto e logo se cansa. Eu fui crescendo e acumulando choques de relacionamento.” Thiago lembra-se do dia em que fez o teste da Mensa. Para entrar no clube, o interessado deve fazer um teste de QI, de conteúdo secreto e aplicado por um psicólogo. Sentado na sala de espera com outros candidatos, ele arriscou uma piada. “É meio triste dizer isso, mas foi a primeira vez em que riram de uma piada minha”, diz. “Naquele momento, eu percebi que aquele era o meu lugar.” Thiago está na Mensa há seis anos.

A Mensa não tem grandes ambições. Pautas políticas? Não. Atuação filantrópica? Tampouco. Algum tipo de atividade lucrativa? Nenhuma. Falta dinheiro, inclusive. Declaradamente, o objetivo da associação é estimular os estudos sobre inteligência, mas não existe ação organizada nesse sentido. Extraoficialmente, a ideia é reunir pessoas parecidas e colocá-las para conversar em torno de uma mesa de bar ou prato de pizza.

Naquela noite, a reunião da Mensa foi quase exclusivamente masculina. A exceção na mesa era Fernanda Urea, namorada de Thiago, que não é associada, mas o acompanha nos eventos. Fernanda diz que já se acostumou com a verve dos mensans, não sem antes alguns episódios de desconforto: “Nas viagens, ela fechava uma panelinha com as mulheres dos outros membros”, afirma Thiago. “Elas não falavam conosco. Acho que é mesmo um pouco intimidante.” Fernanda concorda: “Às vezes, eu acho que existe uma distância muito grande entre o nível do Thiago e o meu”. A distribuição de gênero na mesa reproduzia a estrutura da Mensa – 90% dos membros são homens. A justificativa, diz Daniel Minahim (o do amontoado de carbono), é biológica: “Há menos casos de superdotação entre as mulheres”, afirma. Daniel é psiquiatra. “Em compensação, há também menos casos de psicopatia”, afirmou, com uma risada.

Agora, a Mensa quer crescer e se organizar melhor. Com garfos engordurados, Marcelo Abrileri (o que se questionou sobre a natureza da dor), tentou explicar qual o problema da associação: “Você lembra os vetores na física?”, perguntou ao repórter, que fez que sim com a cabeça, temendo perguntas mais difíceis. “Se você tem dois vetores na mesma direção e sentido, você soma forças. Agora, se você tem isso aqui” – vários garfos engordurados e embaralhados em cima de um prato – “Você não vai para lugar nenhum. Na Mensa você tem isso aqui”. Thiago explica que a Mensa não tem muitos gastos, mas tampouco sabe lidar com o pouco dinheiro que arrecada dos associados. O processo de testagem é lento. A publicidade é falha. Segundo ele, pesa contra a Mensa certo preconceito: “Você é encorajado a ser 100% negro”, diz. “Agora, se eu digo que sou superdotado, a pessoa já olha torto.” Daniel Minahim diz que isso acontece por um problema de índole próprio do brasileiro: “Há aqui, uma cultura da mediocridade. Veja você, em quem votamos – no Lula. E não no Enéas, que era superdotado”.

A Mensa garante não ter preferência política declarada, mas nem ela escapou da barafunda republicana que cindiu o Brasil em 2015. Entre defensores do impeachment e governistas, os ânimos esquentaram. Como a maioria das discussões acontece por Facebook, os ataques e revides tomaram corpo no mundo virtual. Ao fim da pendenga, os mensans descobriram que não havia reconciliação possível entre as facções. “Metade da Mensa tem a outra metade bloqueada no Facebook”, diz Daniel. Há espaço para decisões extremadas mesmo entre os mais inteligentes de nós.

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A Mensa reúne as pessoas com maior QI no mundo. Seus membros brasileiros quebram a cabeça para manter a associação ativa (Foto: Getty Images)

Revista Época
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/12/um-jantar-com-os-homens-mais-inteligentes-do-brasil.html

 

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