Cientistas da UFRJ decifram efeitos do zika em cérebro de adultos

Por Ana Lucia Azevedo em O Globo.

RIO — Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram os alvos do vírus zika no cérebro de adultos , num estudo de repercussão mundial.

Eles comprovaram que ele não só ataca diretamente os neurônios como deflagra uma espécie de curto-circuito cerebral, um tipo de reação inflamatória grave observada em doenças como o mal de Alzheimer.

O zika assustou e surpreendeu o mundo ao causar microcefalia e uma síndrome de anomalias congênitas em bebês. Agora, se comprova que também causa efeitos severos em adultos ao afetar as áreas dos cérebros associadas à memória e aos movimentos, explica a neurocientista da UFRJ Cláudia Figueiredo, uma das líderes do grupo.

O estudo identificou também drogas para tratar os distúrbios neurológicos causados pela infecção. Estes vão de desorientação a perda de memória e coordenação motora e, nos casos mais severos, paralisia.

O trabalho sugere ainda que esses casos são mais frequentes do que se imagina e propõe novas políticas públicas de saúde para identificar entre as pessoas com distúrbios neurológicos aquelas que infectadas pelo zika. Fará diferença entre a recuperação e o sofrimento dos pacientes e a redução dos gastos em saúde pública.

— A zika, como as demais doenças do aedes, como a chicungunha e a dengue, são subnotificadas e temos visto emergir uma série de novos acometimentos, como os neurológicos. Nosso estudo pode contribuir para o diagnóstico e o tratamento — diz Figueiredo.

A magnitude das descobertas, inteiramente feitas no Rio e com recursos públicos, mereceu destaque numa das mais importantes revistas científicas do mundo, a Nature Communications.

A microcefalia e demais anomalias congênitas provocadas pelo zika em bebês suscitaram a hipótese de que seu alvo no cérebro eram as chamadas células progenitoras de neurônios, um tipo de célula-tronco. O grupo da UFRJ, baseado na experiência com outras doenças neurológicas, imaginou outra hipótese. E a testou primeiro em culturas de neurônios humanos em laboratório e, depois, em camundongos.

Os primeiros testes revelaram que a teoria das células progenitoras não era verdade para adultos. O zika infectava neurônios maduros, muito mais abundantes. Mais do que isso, se multiplicava neles. E o fazia nas regiões do cérebro associadas à memória, à cognição e aos movimentos.

Foi aí que entraram os camundongos, explica outro dos líderes do estudo, o neurocientista Sérgio Ferreira, um dos maiores estudiosos do mal do Alzheimer do país. Após um mês da infecção no cérebro dos camundongos — uma enormidade em termos na vida de um roedor que não costuma ultrapassar dois anos — o vírus praticamente desaparecia.

Mas isso não significava o fim da doença. Ao contrário. Ferreira diz que a infecção provoca uma reação exagerada de um tipo de célula de defesa do cérebro chamado microglia. Esse processo gera uma inflamação do cérebro. As microglias passam a devorar as sinapses, a rede de comunicação entre os neurônios.

O resultado é um curto-circuito cerebral, com panes na cognição e nos movimentos. Como o processo inflamatório não é imediato, muitas vezes os sintomas neurológicos só aparecem muito tempo depois da infecção pelo zika, que nem sempre é aparente.

— No cérebro em formação dos fetos, o zika causa uma devastação. No dos adultos, semeia o caos. E o mais impressionante é que em adultos é um mecanismo bastante semelhante ao que vemos no mal de Alzheimer — observa Ferreira.

Ninguém sabe por que algumas pessoas são mais vulneráveis do que outras a desenvolver o quadro imunológico. Claudia Ferreira diz que muito provavelmente isso está associado à resposta descontrolada a infecções e, assim, à vulnerabilidade a inflamações.

Com foco nas inflamações, os pesquisadores passaram para a etapa seguinte e trataram os camundongos doentes com uma droga usada contra artrite reumatoide, cujo nome genérico é infliximab.  Os sintomas melhoraram de forma significativa. Uma estratégia semelhante, com foco na inflamação, está em teste nos EUA para tratar pacientes com mal de Alzheimer, acrescenta Ferreira.

O prosseguimento dos estudos, que conta com apoio da Faperj, pode ser interrompido pela suspensão das bolsas da Capes e do CNPq para os alunos de doutorado envolvidos no trabalho.

Ciência em crise

O trabalho está na edição desta semana da Nature Communications, um dos mais respeitados periódicos científicos do mundo. E só foi possível graças ao apoio da Faperj, que criou uma espécie de força-tarefa de pesquisa contra o vírus.

As descobertas são resultado de três anos e meio de pesquisa de um grupo de 22 cientistas, todos da UFRJ. Eles tiveram apoio da Capes e do CNPq  e foram financiados principalmente pela Rede Zika da Faperj e um edital da mesma fundação para jovens cientistas com alta performance acadêmica.

— É um investimento da Faperj em produção de conhecimento estratégica não apenas para o estado, mas para o país. O Rio em ciência começa a se distinguir de forma positiva e esperamos que continue, após a terrível crise pela qual passou — diz a neurocientista Claudia, uma das líderes do grupo.

Sérgio Ferreira afirma que o país começa a perder sua produção científica:

— Hoje no Brasil não se pode mais fazer pesquisas assim. Talvez no Rio, se a Faperj continuar a se recuperar possamos fazer alguma coisa. Mas não no resto do país. Não há dinheiro nem para alimentar os animais de laboratório — salienta Ferreira.

Imagem: A neurocientista Cláudia Figueiredo e a pesquisadora Fernanda Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que descobriram os alvos do vírus zika no cérebro de adultos. Divulgação.

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